clarice lispector

descubrimientos

crónicas inéditas

Traducción y prólogo de Claudia Solans

2ª edición en Argentina: noviembre de 2010

2ª edición en España: noviembre de 2010

Adriana Hidalgo editora S.A., 2010

Buenos Aires

 

 

el artista perfecto

 

No me acuerdo bien de si es en Les donnés immediates de la

conscience que Bergson habla del gran artista que sería aquel que tuviera

no sólo uno sino todos los sentidos liberados del utilitarismo. El pintor

tiene más o menos liberado el sentido de la visión; el músico, el sentido de

la audición.

Pero aquel que estuviera completamente libre de soluciones

convencionales y utilitarias vería el mundo o, mejor, tendría al mundo de

un modo como jamás artista alguno lo tuvo. Quiero decir, totalmente y en

su verdadera realidad.

Eso podría plantear una hipótesis. Supongamos que se pudiera

educar, o no educar, a una criatura, tomando como base la determinación

de conservarle los sentidos alertas y puros. Que no se le dieran datos, sino

que sus datos fueran sólo los inmediatos. Que ella no se habituase.

Supongamos también que, con el fin de mantenerla en el campo sensato

que le sirviera de denominador común con los otros hombres, se le

permitiera cierta estabilidad indispensable para vivir, se le dieran unas

pocas nociones utilitarias: pero utilitarias para que sean utilitarias, comida

para ser comida, bebida para ser bebida. Y en el resto se la conservara

libre. Supongamos entonces que esa criatura se volviera artista y fuera

artista.

Surge el primer problema: ¿sería artista por el simple hecho de esa

educación? Es de creer que no, arte no es pureza, es purificación, arte no

es libertad, es liberación.

Esa criatura sería artista desde el momento en que descubriera que

hay un símbolo utilitario en la cosa pura que se nos da. Haría arte, sin

embargo, si siguiera el camino inverso al de los artistas que no pasan por

esa imposible educación: unificaría las cosas del mundo no por su lado de

maravillosa gratuidad sino por su lado de utilidad maravillosa. Se liberaría.

Si pintara, es probable que llegara a la siguiente fórmula explicativa de la

naturaleza: pintaría un hombre comiendo el cielo. Nosotros, los utilitarios,

aún logramos mantener al cielo fuera de nuestro alcance. A pesar de

Chagall. Es una de las pocas cosas para la que todavía no servimos. Esa

criatura, convertida en hombre-artista, tendría, pues, los mismos

problemas fundamentales de alquimia.

Pero si ese hombre, ese único, no fuera artista —no sintiera la

necesidad de transformar las cosas para darles una realidad mayor—, no

sintiera, en fin, la necesidad de arte, entonces cuando hablara nos

espantaría. Diría las cosas con la pureza de quien vio que el rey está

desnudo. Nosotros lo consultaríamos como ciegos y sordos que quieren ver

y oír. Tendríamos un profeta, no del futuro, sino del presente. No

tendríamos un artista. Tendríamos un inocente. Y el arte, imagino, no es

inocencia, es volverse inocente.

Tal vez sea por eso que las exposiciones de dibujos de niños, por más

bellas, no son propiamente exposiciones de arte. Y es por eso que si los

niños pintan como Picasso, tal vez sea más justo alabar a Picasso que a los

niños. El niño es inocente, Picasso se volvió inocente.

 

 

o artista perfeito

 

Não me lembro bem se é em Les donnés de la conscience que Bergson fala do grande artista que seria

aquele que tivesse, não só um, mas todos os sentidos libertos do utilitarismo. O pintor tem mais ou

menos liberto o sentido da visão, o músico o sentido da audição

Mas aquele que estivesse completamente livre de soluções convencionais e utilitárias veria

o mundo, ou melhor, teria o mundo de um modo como jamais artista nenhum o teve. Quer dizer,

totalmente e na sua verdadeira realidade.

Isso poderia levantar uma hipótese. Suponhamos que se pudesse educar, ou não educar,

uma criança, tomando como base a determinação de conservar-lhe os sentidos alertas e puros. Que

se não lhe dessem dados, mas que os seus dados fossem apenas os imediatos. Que ela não se

habituasse. Suponhamos ainda que, com o fim de mantê-la em campo sensato que lhe servisse de

denominador comum com os outros homens lhe permitisse certa estabilidade indispensável para

viver, dessem-lhe umas poucas noções utilitárias: mas utilitárias para serem utilitárias, comida para

ser comida, bebida para ser bebida. E no resto a conservasse livre. Suponhamos então que essa

criança se tornasse artista e fosse artista.

O primeiro problema surge: seria ela artista pelo simples fato dessa educação? É de crer

que não, arte não é pureza, é purificação, arte não é liberdade, é libertação.

Essa criança seria artista do momento em que descobrisse que há um símbolo utilitário na

coisa pura que nos é dada. Ela faria, no entanto, arte se seguisse o caminho inverso ao dos artistas

que não passam por essa impossível educação: ela unificaria as coisas do mundo não pelo seu lado

de maravilhosa gratuidade mas pelo seu lado de utilidade maravilhosa. Ela se libertaria. Se

pintasse, é provável que chegasse à seguinte fórmula explicativa da natureza: pintaria um homem

comendo o céu. Nós, os utilitários, ainda conseguimos manter o céu fora de nosso alcance. Apesar

de Chagall. É uma das poucas coisas das quais ainda não servimos. Essa criança, tornada homemartista,

teria pois os mesmos problemas fundamentais de alquimia.

Mas se homem, esse único, não fosse artista – não sentisse a necessidade de transformar as

coisas para lhes dar uma realidade maior – não sentisse enfim necessidade de arte, então quando

ele falasse nos espantaria. Ele diria as coisas com a pureza de quem viu que o rei está nu. Nós o

consultaríamos como cegos e surdos que querem ver e ouvir. Teríamos um profeta, não do futuro,

mas do presente. Não teríamos um artista. Teríamos um inocente. E arte, imagino, não é inocência,

é tornar-se inocente.

Talvez seja por isso que as exposições de desenhos de crianças, por mais belas, não são

propriamente exposições de arte. E é por isso que se as crianças pintam como Picasso, talvez seja

mais justo louvar Picasso que as crianças. A criança é inocente, Picasso tornou-se inocente.