clarice lispector

descubrimientos

crónicas inéditas

Traducción y prólogo de Claudia Solans

2ª edición en Argentina: noviembre de 2010

2ª edición en España: noviembre de 2010

Adriana Hidalgo editora S.A., 2010

Buenos Aires

 

 

escribir

 

Escribir para un diario no es imposible: es algo leve, tiene que ser

leve, e incluso superficial: el lector en relación al diario, no tiene ni ganas

ni tiempo de profundizar.

Pero escribir lo que después será un libro exige a veces más fuerza de

la que aparentemente se tiene.

Sobre todo cuando se tuvo que inventar el propio método de trabajo,

como yo y muchos otros. Cuando conscientemente, a los 13 años de edad,

asumí mi deseo de escribir —yo escribía cuando era niña, pero no había

asumido un destino—, cuando asumí mi deseo de escribir, me vi de pronto

en un vacío. Y en ese vacío no había quien me pudiera ayudar.

Yo tenía que erguirme de una nada, tenía que entenderme,

inventarme a mí misma, por decirlo así, mi verdad. Empecé, y no era ni

siquiera el comienzo. Los papeles se juntaban uno con otro —el sentido se

contradecía, la desesperación de no poder era un obstáculo más para

realmente no poder. La historia interminable que entonces empecé a

escribir (con mucha influencia de El lobo estepario de Herman Hesse), qué

pena no haberla conservado: la rompí, despreciando todo un esfuerzo casi

sobrehumano de aprendizaje, de autoconocimiento. Y todo se hacía en

secreto. No le contaba a nadie, vivía aquel dolor sola. Una cosa ya

adivinaba: era necesario intentar escribir siempre, no esperar un momento

mejor pues éste simplemente no llegaba. Escribir siempre me costó,

aunque hubiera partido de lo que se llama vocación. Vocación no es lo

mismo que talento. Se puede tener vocación y no tener talento, es decir, se

puede ser convocado y no saber cómo ir.

 

 

 

escrever

 

Escrever para jornal não é tão impossível: é leve, tem que ser leve, e até mesmo superficial: o leitor,

em relação a jornal, não tem nem vontade nem tempo de se aprofundar.

Mas escrever o que se tornará depois um livro exige às vezes mais força do que

aparentemente se tem.

Sobretudo quando se teve que inventar o próprio método de trabalho, como eu e muitos

outros. Quando conscientemente, aos 13 anos de idade, tomei posse da vontade de escrever – eu

escrevia quando era criança, mas não tomara posse de um destino – quando tomei posse da

vontade de escrever, vi-me de repente num vácuo. E nesse vácuo não havia quem pudesse me

ajudar.

Eu tinha que eu mesma ne erguer de um nada, tinha eu mesma que me entender, eu

mesma inventar por assim dizer a minha verdade. Comecei, e nem sequer era pelo começo. Os

papéis se juntavam um ao outro – o sentido se contradizia, o desespero de não poder era um

obstáculo a mais para realmente não poder. A história interminável que então comecei a escrever

(com muita influência de O lobo da estepe, Herman Hesse), que pena eu não a ter conservado:

rasguei, desprezando todo um esforço quase sobre-humano de aprendizagem, de

autoconhecimento. E tudo era feito em tal segredo. Eu não contava a ninguém, vivia aquela dor

sozinha. Uma coisa eu já adivinhava: era preciso tentar escrever sempre, não esperar por um

momento melhor pois este simplesmente não vinha. Escrever sempre me foi dificíl, embora tivesse

partido do que se chama vocação. Vocação é diferente de talento. Pode-se ter vocação e não ter

talento, isto é, pode-se ser chamado e não saber como ir.