CLARICE LISPECTOR

PARA NO OLVIDAR

 

Crónicas y otros textos

Traducción de Elena Losada

Libros del Tiempo Ediciones Siruela

Para nao esquecer

Siruela, S. A., 200

 

los espejos

 

 

¿Qué es un espejo? No existe la palabra espejo, sólo espejos,

porque uno solo es una infinidad de espejos . ¿En algún

lugar del mundo hay una mina de espejos? No hacen falta

muchos para tener una mina centelleante y sonámbula:

bastan dos y uno refleja el reflejo de lo que el otro reflejó,

con un temblor que se transmite como un mensaje intenso

e insistente ad infiniturn, liquidez en la que se puede sumergir

la mano fascinada y retirarla goteando reflejos, los

reflejos de esa agua dura. ¿Qué es un espejo? Como la bola

de cristal de los videntes, me arrastra al vacío que para el vidente

es su campo de meditación y para mí el campo de silencios

y silencios. Ese vacío cristalizado que tiene dentro

de sí espacio para seguir siempre adelante sin parar; porque

el espejo es el espacio más profundo que existe. Y es algo

mágico: quien tiene un trozo roto puede irse a meditar

con él al desierto. De donde volvería también vacío, ilumi-

nado y translúcido, y con el mismo silencio vibrante de un

espejo. Su forma no importa; ninguna forma consigue circunscribirlo

y alterarlo, no existe un espejo cuadrangular o

circular: un pequeño pedazo es siempre todo el espejo: se

saca de su marco y crece como se derrama el agua. ¿Qué es

un espejo? Es el único material inventado que es natural.

Quien mira un espejo y consigue al mismo tiempo la independencia

de sí mismo, quien consigue verlo sin verse,

quien entiende que su profundidad consiste en que está

vacío, quien camina hacia el interior de su espacio transparente

sin dejar en él el vestigio de la propia imagen, ha entendido

su misterio. Para eso hay que sorprenderlo en su

soledad, cuando está colgado en un cuarto vacío, sin olvidar

que la más fina aguja frente a él podría transformarlo

en la imagen de una aguja.

Debo de haber necesitado mi propia delicadeza para no

atravesarlo con mi propia imagen, porque un espejo en el

que me veo soy yo, pero el espejo vacío es realmente el espejo

vivo. Sólo una persona muy delicada puede entrar en

el cuarto vacío donde hay un espejo vacío, con una ligereza

tal, con una ausencia de sí misma tal, que la imagen no se

marque. Como premio, esa persona delicada habrá penetrado

entonces en uno de los secretos inviolables de las cosas:

he visto el espejo propiamente dicho.

Y he descubierto los enormes espacios helados que tiene

en sí, sólo interrumpidos por algún que otro bloque de

hielo. En otro instante, éste muy infrecuente -y es necesario

estar al acecho días y noches, ayunando de uno mismo,

para poder captar ese instante-, en ese instante conseguí

sorprender la sucesión de oscuridades que hay dentro de

él. Después, sólo en blanco y negro, recobré también, con

un escalofrío, una de sus verdades más difíciles: su gélido

silencio sin color. Hay que entender la violenta ausencia de

color de un espejo para poder recrearlo, como si se recrease

la violenta ausencia de sabor del agua.

  

 

 

 

 

os espelhos

 

 

O que é um espelho? Não existe a palavra espelho – só espelhos, pois um único é uma infinidade de espelhos. – Em algum lugar do mundo deve haver uma mina de espelhos? Não são precisos muitos para se ter a mina faiscante e sonambúlica: bastam dois, e um reflete o reflexo do que o outro refletiu, num tremor que se transmite em mensagem intensa e insistente ad infinitum, liquidez em que se pode mergulhar a mão fascinada e retirá-la escorrendo de reflexos, os reflexos dessa dura água. – O que é um espelho?

Como a bola de cristal dos videntes, ele me arrasta para o vazio que no vidente é o seu campo de meditação, e em mim o campo de silêncios e silêncios. – Esse vazio cristalizado que tem dentro de si espaço para se ir para sempre em frente sem parar: pois espelho é o espaço mais fundo que existe. – E é coisa mágica: quem tem um pedaço quebrado já poderia ir com ele meditar no deserto. De onde também voltaria vazio, iluminado e translúcido, e com o mesmo silencio vibrante de um espelho. – A sua forma não importa: nenhuma forma consegue circunscreve-lo e alterá-lo, não existe espelho quadrangular ou circular: um pedaço mínimo é sempre o espelho todo: tira-se a sua moldura e ele cresce assim como a água se derrama. – O que é um espelho? é o único material inventado que é natural.

Quem olha um espelho conseguindo ao mesmo tempo isenção de si mesmo, quem consegue vê-lo sem se ver, quem entende que a sua profundidade é ele ser vazio, quem caminha para dentro de seu espaço transparente sem deixar nele o vestígio da própria imagem – então percebeu o seu mistério. Para isso há-de se surpreendê-lo sozinho, quando pendurado num quarto vazio, sem esquecer que a mais tênue agulha diante dele poderia transformá-lo em simples imagem de uma agulha.

Devo ter precisado de minha própria delicadeza para não atravessá-lo com a própria imagem, pois espelho em que eu me veja sou eu, mas espelho vazio é que é o espelho vivo. Só uma pessoa muito delicada pode entrar no quarto vazio onde há um espelho vazio, e com tal leveza, com tal ausência de si mesma, que a imagem não marca. Como prémio, essa pessoa delicada terá então penetrado num dos segredos invioláveis das coisas: Vi o espelho propriamente dito.

E descobri os enormes espaços gelados que ele tem em si, apenas interrompidos por um ou outro alto bloco de gelo. Em outro instante, este muito raro – e é preciso ficar de espreita dias e noites, em jejum de si mesmo, para poder captar esse instante – nesse instante consegui surpreender a sucessão de escuridões que há dentro dele. Depois, apenas com preto e branco, recapturei sua luminosidade arco-irisada e tremula. Com o mesmo preto e branco recapturei também, num arrepio de frio, uma de suas verdades mais difíceis: o seu gélido silêncio sem cor. É preciso entender a violenta ausência de cor de um espelho para poder recriá-lo, assim como se recriasse a violenta ausência de gosto da água.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

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