clarice lispector

descubrimientos

crónicas inéditas

Traducción y prólogo de Claudia Solans

2ª edición en Argentina: noviembre de 2010

2ª edición en España: noviembre de 2010

Adriana Hidalgo editora S.A., 2010

Buenos Aires

 

 

declaración de amor

Ésta es una confesión de amor: amo la lengua portuguesa. No es ella fácil. No es maleable. Y, como no fue profundamente trabajada por el pensamiento, su tendencia es la de no tener sutilezas y reaccionar a veces  con un verdadero puntapié contra los que temerariamente osan transformarla en un lenguaje de sentimiento y vigilancia. Y de amor. La lengua portuguesa es un verdadero desafío para quien escribe. Sobre todo para quien escribe quitando de las cosas y las personas la primera capa de superficialidad.

A veces ella reacciona ante un pensamiento más complicado. A veces se asusta con lo imprevisible de una frase. Me gusta manejarla —como me gustaba estar montada en un caballo y guiarlo con las riendas, a veces lentamente, a veces al galope.

Yo quería que la lengua portuguesa alcanzase lo máximo en mis manos. Y este deseo todos los que escriben lo tienen. Un Camôes y otros iguales no bastaron para darnos para siempre una herencia de lengua ya hecha. Todos nosotros que escribimos estamos haciendo del túmulo del pensamiento algo que le dé vida. Estas dificultades, nosotros las tenemos. Pero no hablé del encantamiento de lidiar con una lengua que no fue profundizada. Lo que recibí de herencia no me llega. Si yo fuera muda, y tampoco pudiera escribir, y me preguntaran a qué lengua querría pertenecer, diría: al inglés, que es preciso y bello. Pero como no nací muda y pude escribir, se volvió absolutamente claro para mí que lo que yo quería realmente era escribir en portugués. Y hasta habría querido no haber aprendido otras lenguas: sólo para que mi abordaje del portugués fuera virgen y límpido.

 

 

 

declaração de amor

 

Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E,

como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutilezas

e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam transformála

numa linguagem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro

desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a

primeira capa de superficialismo.

Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Ás vezes se assusta com o

imprevisível de uma frase. Eu gosto de manejá-la – como gostava de estar montada num cavalo e

guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às vezes a galope.

Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo nas minhas mãos. E este desejo

todos os que escrevem têm. Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar para sempre

uma herança de língua já feita. Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do

pensamento alguma coisa que lhe dê vida.

Essas dificuldades, nós as temos. Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua

que não foi aprofundada. O que recebi de herança não me chega.

Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu

queria pertencer, eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas como não nasci muda e pude escrever,

tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até

queda não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse

virgem e límpida.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Deja un comentario