clarice lispector

descubrimientos

crónicas inéditas

Traducción y prólogo de Claudia Solans

2ª edición en Argentina: noviembre de 2010

2ª edición en España: noviembre de 2010

Adriana Hidalgo editora S.A., 2010

Buenos Aires

 

 

las tres experiencias

 

Hay tres cosas para las que nací y por las que doy mi vida. Nací para

amar a los otros, nací para escribir, y nací para criar a mis hijos. El “amar

a los otros” es tan vasto que incluí hasta perdón para mí misma, con el

sobrante. Las tres cosas son tan importantes que mi vida es corta para

tanto. Tengo que apresurarme, el tiempo urge. No puedo perder un minuto

del tiempo que forma mi vida. Amar a los otros es la única salvación

individual que conozco: nadie estará perdido si da amor y a veces recibe

amor a cambio.

Y nací para escribir. La palabra es mi dominio sobre el mundo. Yo

tuve desde la infancia varias vocaciones que me llamaban ardientemente.

Una de las vocaciones era escribir. Y no sé por qué, fue ésta la que seguí.

Tal vez porque para las otras vocaciones necesitaría un largo aprendizaje,

mientras para escribir el aprendizaje es la propia vida viviendo en nosotros

y alrededor de nosotros. Es que no sé estudiar. Y, para escribir, el único

estudio es el escribir mismo. Me adiestré desde los siete años de edad para

tener un día la lengua en mi poder. Y, sin embargo, cada vez que voy a

escribir, es como si fuera la primera vez. Cada libro mío es un estreno

penoso y feliz. Esta capacidad de renovarme toda a medida que el tiempo

pasa es lo que yo llamo vivir y escribir.

En cuanto a mis hijos, su nacimiento no fue casual. Quise ser madre.

Mis dos hijos fueron generados voluntariamente. Los niños están aquí, a

mi lado. Yo me enorgullezco de ellos, me renuevo en ellos, yo acompaño

sus sufrimientos y angustias, yo les doy lo que es posible dar. Si no fuera

madre, estaría sola en el mundo. Pero tengo una descendencia y para ellos

en el futuro preparo mi nombre cada día. Sé que un día abrirán las alas

para el vuelo necesario, y que me quedaré sola. Es fatal, porque una no

cría a los hijos para una misma, nosotros los criamos para ellos mismos.

Cuando me quede sola, estaré siguiendo el destino de todas las mujeres.

Siempre me quedará amar. Escribir es algo tremendamente fuerte

pero que me puede traicionar y abandonar: puedo un día sentir que ya

escribí lo que es mi parte en este mundo y que debo aprender también a

parar. En escribir no tengo ninguna garantía.

En tanto que amar yo puedo hasta el momento de morir. Amar no

termina. Es como si el mundo me estuviera esperando. Y voy al encuentro

de lo que me espera.

Espero por Dios no vivir del pasado. Tener siempre el tiempo presente

e, incluso ilusorio, algo del futuro.

El tiempo corre, el tiempo es corto: necesito apresurarme, pero al

mismo tiempo vivir como si esta vida mía fuera eterna. Y después morir va

a ser el final de algo fulgurante: morir será uno de los actos más

importantes de mi vida. Y tengo miedo de morir: no sé qué nebulosas y vías

lácteas me esperan. Quiero morir poniendo énfasis en la vida y en la

muerte.

Sólo pido una cosa: en el momento de morir yo querría tener a una

persona amada por mí a mi lado para que me sostenga la mano. Entonces

no tendré miedo, y estaré acompañada al atravesar el gran pasaje. Yo

querría que hubiera reencarnación: que yo renaciera después de muerta y

diera mi alma viva a una persona nueva. Me gustaría, sin embargo, un

aviso. Si es verdad que existe una reencarnación, la vida que ahora tengo

no es propiamente mía: un alma le fue dada a este cuerpo. Quiero renacer

siempre. Y en la próxima reencarnación voy a leer mis libros como una

lectora común e interesada, y no sabré que en esta reencarnación fui yo

quien los escribió.

Me está faltando un aviso, una señal. ¿Llegará como intuición?

¿Vendrá al abrir un libro? ¿Vendrá esta señal cuando yo me encuentre

escuchando música?

Una de las cosas más solitarias que conozco es carecer de la

premonición.

 

as três experiências

 

Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci para amar

os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. O “amar os outros” é tão vasto que

inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra. As três coisas são tão importantes que

minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um

minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que

conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.

E nasci para escrever. A palavra é meu domínio sobre o mundo. Eu tive desde a infância

várias vocações que me chamavam ardentemente. Uma das vocações era escrever. E não sei por

quê, foi esta que eu segui. Talvez porque para as outras vocações eu precisaria de um longo

aprendizado, enquanto que para escrever o aprendizado é a própria vida se vivendo em nós e ao

redor de nós. É que não sei estudar. E, para escrever, o único estudo é mesmo escrever. Adestreime

desde os sete anos de idade para que um dia eu tivesse a língua em meu poder. E no entanto

cada vez que eu vou escrever, é como se fosse a primeira vez. Cada livro meu é uma estreia penosa

e feliz. Essa capacidade de me renovar toda à medida que o tempo passa é o que eu chamo de viver

e escrever.

Quanto aos meus filhos, o nascimento deles não foi casual. Eu quis ser mãe. Meus dois

filhos foram gerados voluntariamente. Os dois meninos estão aqui, ao meu lado. Eu me orgulho

deles, eu me renovo neles, eu acompanho seus sofrimentos e angústias, eu lhes dou o que é possível

dar. Se eu não fosse mãe, seria sozinha no mundo. Mas tenho uma descendência, e para eles no

futuro eu preparo meu nome dia a dia. Sei que um dia abrirão as asas para o voo necessário, e eu

ficarei sozinha. É fatal, porque a gente não cria os filhos para a gente, nós os criamos para eles

mesmos. Quando eu ficar sozinha, estarei seguindo o destino de todas as mulheres.

Sempre me restará amar. Escrever é alguma coisa extremamente forte mas que pode me trair

e me abandonar: posso um dia sentir que já escrevi o que é meu lote neste mundo e que eu devo

aprender também a parar. Em escrever eu não tenho nenhuma garantia.

Ao passo que amar eu posso até a hora de morrer. Amar não acaba. É como se o mundo

estivesse à minha espera. E eu vou ao encontro do que me espera.

Espero em Deus não viver do passado. Ter sempre o tempo presente e, mesmo ilusório, ter

algo no futuro.

O tempo corre, o tempo é curto: preciso me apressar, mas ao mesmo tempo viver como se

esta minha vida fosse eterna. E depois morrer vai ser o final de alguma coisa fulgurante: morrer

será um dos atos mais importantes de minha vida. Eu tenho medo de morrer: não sei que

nebulosas e vias-lácteas me esperam. Quero morrer dando ênfase à vida e à morte.

Só peço uma coisa: na hora de morrer eu queria ter uma pessoa amada por mim ao meu lado

para me segurar a mão. Então não terei medo, e estarei acompanhada quando atravessar a grande

passagem. Eu queria que houvesse encarnação: que eu renascesse depois de morta e desse a minha

alma viva para uma pessoa nova. Eu queria, no entanto, um aviso. Se é verdade que existe uma

reencarnação, a vida que levo agora não é propriamente minha: uma alma me foi dada ao corpo.

Eu quero renascer sempre. E na próxima encarnação vou ler meus livros como uma leitora comum

e interessada, e não saberei que nesta encarnação fui eu que os escrevi.

Está-me faltando um aviso, um sinal. Virá como intuição? Virá ao abrir um livro? Virá esse

sinal quando eu estiver ouvindo música?

Uma das coisas mais solitárias que eu conheço é não ter a premonição.