clarice lispector

 

revelación de un mundo

a descoberta do mundo

 

 

traducción: Amalia Sato

Adriana Hidalgo editora

octubre de 2005

Buenos Aires

 

 

 

 

 

 

frase misteriosa

sueño extraño

 

 

 

 

A veces me vienen frases completas, resultado retardado de pensamientos anteriores.

Son misteriosas esas frases porque, al venir, no se vinculan ya a ninguna fuente.

Por ejemplo, la siguiente frase me llegó y podría haber sido dicha por tantas personas

infelices:

“Yo quería darte pan para tu hambre pero tú querías oro. Sin embargo tu hambre es

tan grande como tu alma a la que empequeñeciste a la altura del otro”.

¿Por qué estas palabras que no viví yo misma? La única hipótesis, a causa de la

palabra oro, viene del sueño que una lectora tuvo respecto de mí. Ella me lo escribió.

La lectora firma Azalea, y después se convirtió en una gran amiga. Y me escribió:

“No se impresione, ni se asuste. La interpretación es la mejor posible. Soñé con una

especie de cantero inmenso, con la tierra toda revuelta hacia los costados. Junto a

este cantero, agachadas, arrodilladas, muchas personas. Todas desconocidas para

mí, que, de cerca, miraba la escena. Unas, yo ni podría saber si las conocía o no,

tan enterrados estaban sus rostros en el trabajo de revolver y dar vuelta la tierra.

Buscaban oro, Clarice. Y lo encontraban. Porque, delante de cada una de ellas crecía,

cada vez más, un montículo brillante que no podía sino ser oro.

”En medio de aquella gente, alucinada, cavando también, una persona de cara muy

conocida para mí: Clarice Lispector, la escritora — quien para mí, siempre fue, desde

la época de mi curso de literatura clásica del colegio, la mejor escritora de nuestra

lengua. El rostro era tan familiar que lo veía como si allí estuviera alguien de mi

familia. Entonces, con ansiedad igual a la suya, empecé a acompañar su trabajo

de excavar por oro.

”Al contrario de los otros, delante de ella había un montículo inmundo de tierra.

Oro, no. Los otros cavaban y, felices, separaban el metal brillante, aumentando

siempre sus montículos. Usted, no. Cada vez que, desesperada, enterraba sus

manos en la tierra revuelta, de allí retiraba puñados de cabellos, oscuros, sucios,

horribles. Y miraba para atrás, con desesperación, buscándome, y mostraba

el resultado de su búsqueda.

”Y nuevamente se entregaba a aquella loca, desesperada excavación. Sus miradas

y sus gestos, mostrándome las manos sin oro —ni cabellos dorados usted sacaba—,

todo eso me llegaba como un llamado para que la ayudase.

Entonces, yo me dirigí a usted. La toqué en el hombro. Le pedí que saliera de allí.

Aquello no era para usted.

Raro porque en todo momento yo me sentía afligida, desesperada y enferma, como

si fuera la misma Clarice Lispector. Usted me atendió.

Se levantó y se dispuso a acompañarme.

De espaldas al grupo que seguía sufridamente cavando, salí llevándola de la mano.

Sentí, entonces, que se resistía todavía. Y miraba hacia atrás. Pesarosa de alejarse

de allí, como sí allá estuviera guardada su última esperanza.

Caminamos un poco, de la mano, sin hablar. Usted lloraba mucho, y de vez en cuando

se desprendía de mí y se miraba largamente las dos manos vacías.

Una al lado de la otra. Y sollozaba: ¡vacías, Azalea! Yo las tomaba de nuevo, con

miedo de que usted volviera a ese trabajo de locos. Fue entonces cuando surgió

ante nosotras el hombre.

Todo de oro, pero estaba vivo pues caminaba y sonreía bondadoso, amigo. Conocido

suyo. Mío, no. Usted gritó su nombre y corrió hacia él.

Abrazados, muy unidos, yo ya no distinguía quién era de oro, si usted o él. Ambos

brillaban y una claridad, una luz intensa se apoderó de todo. Me desperté llorando

mucho. Les conté el sueño a los míos, en la mesa de café.

Era domingo. Mi cuñado dijo: ‘Mira, Clarice Lispector debe de estar hoy en Jornal

do Brasil, salgo a comprarte uno’.

Ahí empezaron estas ganas de hablarle. Mi cuñado volvió y dijo: ‘Ella escribe los

sábados’. Esperé hasta el próximo sábado (los otros días de la semana leo otro

matutino). Y aquel sábado, su diario hizo que Clarice entrara, esa mañana de abril

de sol y de agradable fresco, aquí a casa.

Azalea no se limitó a la carta. Me envió, con ella, a un muchacho joven, puro,

límpido: era Domenico, con rosas blancas de enredadera para mí. Estas rosas

son muy misteriosas: cuanto más pasa el tiempo y envejecen, más perfumadas

se vuelven.

Telefoneé a Azalea contándoselo y me dijo que estas rosas son así y que me va

a regalar un gajo de la planta para que yo la ponga en mi terraza, cerca de la verja,

para que puedan trepar y perfumar mi vida.

(Ahora, a propósito de perfume, sentí tal saudade, que fui a mi cuarto y me pasé

Scandal de Lanvin por los cabellos. Y, como tengo cabellos claros, imaginé que

habían quedado como oro, como en el sueño de Azalea.)

Quedé impresionada con el sueño y sólo sé que es simbólico. Le preguntaré a

un hechicero amigo mío —psicoanalista— qué interpretación darle al oro, y también

a mi frase sobre oro y pan. Y he aquí que llena de alegría recordé que el pan tiene

la riqueza del trigo.

 

 

 

 

 

frase misteriosa

sonho estranho

 

 

 

Às vezes me vêm frases complexas, resultado retardado de pensamentos anteriores.

São misteriosas essas frases porque, ao virem, não se ligam mais a nenhuma fonte. Por exemplo, a frase seguinte chegou-me e poderia ter sido dita por tantas pessoas infelizes:

“Eu queria te dar pão para a tua fome mas tu querias ouro. No entanto tua fome é grande como a tua alma que apequenaste à altura do outro.”

Por que estas palavras que não vivi eu própria?

A única hipótese, por causa da palavra ouro, vem do sonho que uma leitora teve a meu respeito.

Ela o escreveu para mim. A leitora assina-se Azalea, que depois se tornou uma grande amiga.

E me escreveu: “Não se impressione, nem se assuste. A interpretação é a melhor possível. Sonhei com uma espécie de canteiro imenso, com a terra toda revolvida para os lados. Junto a este canteiro, abaixadas, ajoelhadas, muitas pessoas. Todas desconhecidas para mim, que, de perto, olhavam a cena. Umas, nem eu poderia saber se as conhecia ou não, tão enterrados estavam os rostos no trabalho de revolver e revirar a terra. Procuravam ouro, Clarice. E achavam. Porque, à frente de cada uma delas se avolumava, cada vez mais, um monte brilhante que não podia deixar de ser ouro.

“No meio daquela gente, alucinada, cavando também, uma pessoa de cara muito conhecida minha: Clarice Lispector, a escritora – a que para mim, sempre foi, desde o tempo de classe de literatura do clássico, a melhor escritora de nossa língua. O rosto era tão familiar que era visto por mim como se ali estivesse alguém de minha família. Então, com ansiedade igual à sua, passei a acompanhar o seu trabalho de cavar ouro.

“Ao contrário dos outros, à sua frente, havia um monte imundo de terra. Ouro, não. Os outros cavavam e, felizes, separavam o metal brilhante, aumentando sempre mais os montes. Você, não. Cada vez que, desesperada, enterrava suas mãos na terra remexida, dali retirava punhados de cabelos, escuros, sujos, horríveis. E olhava para trás, com desespero, à minha procura, mostrava o resultado de sua busca.

“E novamente se entregava àquela louca, desesperada escavação. Seus olhares e seus gestos, mostrando-me as mãos sem ouro – nem cabelos dourados você tirava -, tudo isso me chegava como um apelo para que a ajudasse. Então, eu me dirigi até você. Toquei no seu ombro. Pedi-lhe que saísse dali. Aquilo não era para você. Esquisito porque em todos os momentos eu me sentia aflita, desesperada e doente, como se eu fosse a própria Clarice Lispector. Você me atendeu.

Levantou-se e se dispôs a me acompanhar. De costas já para o grupo que continuava, sofregamente cavando, saí levando-a pela mão. Senti, então, que você relutava ainda. E olhava para trás. Pesarosa de se afastar dali, como se lá estivesse guardada a sua última esperança. Caminhamos um pouco, mãos dadas, sem falar. Você chorava muito, e de vez em quando se desprendia de mim e fitava longamente suas duas mãos vazias. Uma ao lado da outra.

E soluçava: vazias, Azalea! Eu as retomava, com medo que você voltasse para aquele trabalho de loucos. Foi aí, então, que surgiu à nossa frente o homem. Todo em ouro, mas era vivo pois andava e sorria bondoso, amigo.

Conhecido seu. Meu, não. Você gritou o nome e correu para ele. Abraçados, muito unidos, eu já não distinguia quem era de ouro, você ou ele. Ambos brilhavam e uma claridade, uma luz intensa tomou conta de tudo. Acordei chorando muito. Contei o sonho aos meus, na mesa do café. Era domingo. Meu cunhado disse: ‘Olhe, Clarice Lispector deve estar hoje no Jornal do Brasil, vou lá fora comprar um para você.’

Daí já comecei com esta vontade de lhe falar. Escrevendo, pelo telefone, de algum modo eu queria lhe falar. Meu cunhado voltou e disse: ‘Ela escreve aos sábados.’

Esperei até o próximo sábado, o seu jornal fez com que Clarice entrasse, nesta manhã de sol e de friozinho bom de abril, aqui em casa.”

Azalea não ficou apenas na carta. Enviou-me, com a carta, um rapaz novo, puro, límpido: era Domenico, com rosas brancas de trepadeira para mim. Essas rosas são muito misteriosas: quanto mais passa o tempo e elas envelhecem, mais perfumadas ficam. Telefonei para Azalea contando e ela disse que essas rosas são assim mesmo e vai me dar de presente uma muda da planta para eu pôr no meu terraço, perto das grades, para elas poderem subir e perfumar a minha vida. (Agora, por falar em perfume, senti tanta saudade, que fui para o meu quarto e passei Scandal de Lanvin pelos meus cabelos. E, como tenho cabelos claros, imaginei que tinham ficado de ouro, como no sonho de Azalea.)

Fiquei impressionada com o sonho e só sei que ele é simbólico. Perguntarei a um feiticeiro amigo meu – psicanalista – que interpretação dar ao ouro, e também a minha frase sobre ouro e pão. E eis que cheia de alegria lembrei-me de que pão tem a riqueza do trigo.