clarice lispector

 

revelación de un mundo

a descoberta do mundo

 

 

 

traducción: Amalia Sato

Adriana Hidalgo editora

octubre de 2005

Buenos Aires

 

 

 

 

un instante fugaz

 

 

 

Yo iba caminando por una calle con mucho movimiento cuando, en sentido contrario al mío, mirando hacia mí, apareció un hippie.

Me miró, primero distraído y, después, mostrando una gran sorpresa, fijo. Y me sonrió. Entonces yo le sonreí.

Hizo gesto de detenerse. Pero yo tenía una cita, además de tener, en sentido amplio, mi camino personal, y no me detuve. Pero

como nos habíamos visto ya de lejos, y nos acercábamos cada vez más, pudimos observarnos bien. Fue un encuentro muy profundo.

¿De qué nos reímos? De nuestro encuentro que era de alegría. De la estupidez del mundo también.

Imagino que, si me parara, diría: ¡hola! Y él respondería: ¡hola! O mejor, como era un hippie extranjero, hablaría en inglés: hi! (se

pronuncia: jai). Y me preguntaría: Who are you? (¿Quién eres tú?) Yo diría: I am (yo soy). Me preguntaría: ¿cómo te llaman, cuál

es tu número? Yo le respondería: mi nombre es Clarice, ¿y el tuyo? Diría el suyo. Apuesto que sería John. Tenía cara de John,

nunca te olvidaré. Ni con el pasar de los años.

Porque fuimos eternos en aquel instante.

Fue un instante apenas pero en él hicimos un comentario del mundo y de nosotros mismos. Mi hermano.

Éste, estoy segura, no fumaba marihuana: tenía en sí capacidad de éxtasis, como yo. Hay quienes ya tienen el LSD dentro de sí,

y no necesitan tomarlo. John, tú provienes de una familia, como yo. Y necesitaste, como yo, hacer del mundo también tu familia.

Pero ¿por qué tanta sorpresa al verme, John?

Tú debías saber que yo existía. Disculpa que no me haya detenido, como tú querías. Yo no podía, créeme.

 

Tan distinto de lo que me pasó hace unos días. Yo estaba en un taxi que paró en un semáforo en rojo. Otro taxi, paralelo al mío,

tenía por chofer a un hombre de 30 años, con un pasajero. Yo miraba por completo distraída al vacío, sin darme cuenta de que

estaba mirando a una persona.

Esa persona me miró, fijó la vista en mí e inesperadamente me guiñó un ojo. Desvié la mirada. Tan cine mudo, todo. Y tan

divertido (no el cine mudo en sí). No es que ese conductor me haya ofendido. Pero se veía tan inútil.

Y quería inutilizarme a mí también. Y nunca me dejo.

 

En cambio John me dejó plena y útil. John, ¿dónde duermes? Yo todavía no soy tan libre: necesito una casa y una cama para

dormir. Y no puedo dormir en la casa de los otros. Tiene que ser la mía. O entonces en un hotel. ¿Tendrías dinero para un viaje?

Creo que sí, estabas con un traje hippie lindo y esas cosas cuestan caro. John, en un momento de enorme desesperación le

pedí a Dios que me concediera una ayuda. Y la ayuda llegó: un hombre que no conozco me telefoneó. Entonces lloré al teléfono.

Él dijo: no llores que llorar debilita. Yo dije: pero a veces es como la lluvia que se necesita cuando está demasiado seco y todo

se vuelve árido.

Le pedí que me telefoneara de nuevo a las seis de la tarde. Dijo que no podía.

Pero a las seis en punto me telefoneó. Yo ya no estaba desesperada, incluso nos reímos.

Al día siguiente me telefoneó de nuevo. Conversamos. Por su cuenta dijo que haría un juramento: que jamás le contaría a nadie

que me conocía. Le dije: si necesitas contarlo, cuéntalo, no te ates a un juramento. Él dijo: no, te lo juro porque es por demás

sagrado.

John, leí que la angustia es el vértigo de la libertad. Entretanto estoy teniendo ese vértigo, pero sin angustia. ¿Cómo se explica?

Yo estoy seria, pero por dentro sonrío. No sé de qué. Es que vivir me hace sonreír.

Es una sonrisa misteriosa.

Viene de florestas interiores, de lagos y azudes y montañas y cielo.

Soy toda misteriosa, John.

Tú eres más claro que yo. Tú eres una risa, una mirada sorprendida.

Hasta siempre.

 

 

 

 

 

um instante fugaz

 

 

Eu ia andando por uma rua movimentada quando, em direção oposta à minha, para o meu lado, um hippie apareceu. Ele me olhou, antes distraído e, depois, demonstrando grande surpresa, fixo. E riu para mim. Então ri para ele. Ele fez menção de parar. Mas eu tinha hora marcada, além de ter, em largo sentido, caminho próprio, e não parei.

Mas como nos havíamos visto já de longe, e cada vez mais perto, nós nos vimos bem.

Foi um encontro muito profundo.

De que rimos nós? Do nosso encontro que era de alegria. Da tolice do mundo também. 

Imagino que, se eu parasse, eu diria: oi! E ele responderia: oi! Ou melhor, como era um hippie estrangeiro, ele falaria em inglês: hi! (pronuncia-se: rai) E me perguntaria: Who are you? (Quem é você?) Eu diria: I am (eu sou). Ele me perguntaria: como é que chamam você, que número você tem? Eu responderia: meu número é Clarice, e o seu? Ele diria o dele. Aposto que seria John.

Tinha cara de John, eu nunca esquecerei você. Nem com o passar de anos. Porque nós fomos eternos naquele instante.

Foi um instante apenas mas nele fizemos um comentário do mundo e de nós próprios. Meu irmão. Esse, tenho certeza, não fumava maconha: tinha em si a capacidade de êxtase, como eu. Há os que já têm LSD em si, sem precisar tomá-lo. John, você vem de uma família, como eu. E precisou, como eu, fazer do mundo também sua família. Mas por que tanta surpresa ao me ver, John?

Você devia saber que eu existo. Desculpe eu não ter parado, como você queria. Eu não podia, acredite.

Tão diferente do que me aconteceu um dia desses. Um dia desses eu estava num táxi que parou diante do sinal vermelho. Um outro táxi, paralelo ao meu, tinha como motorista um homem de seus 30 anos, com passageiro dentro. Eu olhava inteiramente distraída para o ar, sem perceber que o que estava olhando era uma pessoa. Essa pessoa olhou para mim, fixou-me mais e inesperadamente piscou o olho para mim. Desviei o olhar.

Tão cinema mudo, isto. E tão barato (não o cinema mudo em si). Não é que esse motorista tenha me ofendido. Mas ele era tão inútil. E queria me inutilizar também. Eu nunca deixo.

Enquanto que John me deixou plena e útil. John, onde é que você dorme? Eu ainda não sou tão livre: preciso de uma casa e de uma cama para dormir. E não sei dormir na casa dos outros. Tem que ser a minha. Ou então um hotel.

Você teria dinheiro para uma viagem? Acho que sim, você estava com um traje hippie bonito e essas coisas custam caro.

John, num momento de muito desespero eu pedi a Deus que me arranjasse uma ajuda. E a ajuda veio: um homem que não conheço me telefonou. Aí eu chorei ao telefone. Ele disse: não chore que chorar enfraquece. Eu disse: mas às vezes é como a chuva de que se precisa quando tem estiagem demais e tudo fica muito seco. Eu lhe pedi para me telefonar de novo às seis da tarde.

Ele disse que não podia. Mas às seis em ponto me telefonou. Eu já não estava desesperada, até rimos. No dia seguinte ele me telefonou de novo. Conversamos. Por conta própria ele disse que ia fazer um juramento: o de jamais contar a ninguém que me conhecia.

Eu disse: se você precisar contar, conte, não se prenda a um juramento. Ele disse: não, eu juro porque é por demais sagrado.

John, eu li que a angústia é a vertigem da liberdade. No entanto eu estou tendo essa vertigem, mas sem angústia. Como é que se explica? Eu estou séria, mas por dentro estou sorrindo. Não sei de quê. É que viver me faz sorrir. É um sorriso misterioso. Vem de florestas interiores, de lagos e açudes e montanhas e céu.

Sou toda misteriosa, John. Você é mais claro que eu. Você é um riso, um olhar de surpresa. Até sempre.

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

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