para nao esqueçer

 

CLARICE LISPECTOR

 

PARA NO OLVIDAR

Crónicas y otros textos

 

Traducción del portugués de

Elena Losada

Libros del Tiempo Ediciones Siruela

 

       

 

 

 

 

noche de febrero

 

 

Te lo juro, créeme- la sala estaba oscura- pero la música llamó al centro de la sala- la sala se oscureció del todo en la oscuridad- yo estaba en tinieblas- sentí que por más oscura que estuviese la sala era clara – me abrigué del miedo– como ya me había abrigado de ti en ti mismo – ¿Qué encontré?- nada, salvo que la sala oscura se llenaba de esa claridad que se adivina en lo más oscuro – y que yo temblaba en el centro de esa difícil luz – créeme aunque no pueda explicarlo- hubo algo perfecto y lleno de gracia- como si yo nunca hubiese visto una flor – o como si yo fuese la flor- y hubiese una abeja- una abeja helada de pavor- ante la irrespirable gracia de esa luz en las tinieblas que es una flor- y la flor estaba helada de pavor ante la abeja que era muy dulce – créeme aunque yo no crea- porque tampoco sé qué podría una abeja viva de pavor querer en la oscura vida de una flor- pero créeme – la sala estaba llena de una sonrisa penetrante- un rito fatal se cumplía- y lo que se llama pavor no es pavor- es la blancura subiendo de las tinieblas – no quedó ninguna prueba- no puedo garantizarte nada- yo soy la única prueba de mí.

 

 

noite de fevereiro

 

Juro, acredita em mim – a sala de visitas estava escura – mas a música chamou para o centro da sala – a sala se escureceu toda dentro da escuridão – eu estava nas trevas – senti que por mais escura a sala era clara – agasalhei-me no medo – como já me agasalhei de ti em ti mesmo – que foi que encontrei? – nada senão que a sala escura enchia-se da claridade que se adivinha no mais escuro – e que eu tremia no centro dessa difícil luz – acredita em mim embora eu não possa explicar – houve alguma coisa perfeita e graciosa – como se eu nunca tivesse visto uma flor – ou como se eu fosse a flor – e houvesse uma abelha – uma abelha gelada de pavor – diante da irrespirável graça dessa luz das trevas que é uma flor – e a flor estava gelada de pavor diante da abelha que era muito doce – acredita em mim que também não creio – que também não sei o que poderia uma abelha viva de pavor querer na escura vida de uma flor – mas cré em mim – a sala estava cheia de um sorriso penetrante – um rito fatal se cumpria – e o que se chama de pavor não é pavor – é a brancura subindo das trevas – não ficou nenhuma prova – nada te posso garantir – eu sou a única prova de mim.

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

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