clarice lispector

para no olvidar

para nao esqueçer

clarice

nao esqueçer

 

romance

 

 

Ficaria mais atraente se eu o tornasse mais atraente.

Usando, por exemplo, algumas das coisas que emolduram

uma vida ou uma coisa ou romance ou um personagem.

É perfeitamente lícito tornar atraente, só que há o

perigo de um quadro se tornar quadro porque a moldura

o fez quadro.

Para ler, é claro, prefiro o atraente, me cansa menos,

me arrasta mais, me delimita e me contorna.

Para escrever, porem, tenho que prescindir.

A experiência vale a pena, mesmo que seja apenas

para quem escreveu.

 

 

novela

 

Sería más atractivo si yo lo hiciese más atractivo.

Usando, por ejemplo, alguna de las cosas que enmarcan

una vida o una cosa o una novela o un personaje.

Es perfectamente lícito hacerlo atractivo, pero existe el

peligro de que un cuadro sea un cuadro porque el marco

ha hecho de él un cuadro.

Para leer, claro, prefiero lo atractivo, me cansa menos,

me arrastra más, me delimita y me define.

Para escribir, sin embargo, tengo que prescindir.

La experiencia vale la pena, aunque sólo sea para

quien ha escrito.

 

 

como se chama

 

 

Se recebo um presente dado com carinho por pessoa de quem não gosto – como se chama o que sinto?

Uma pessoa de quem não se gosta mais e que não gosta mais da gente – como se chama essa mágoa e esse rancor?

Estar ocupada, e de repente parar por ter sido tomada por uma desocupação beata, milagrosa, sorridente e idiota – como se chama o que se sentiu?

O único modo de chamar é perguntar: como se chama?

Até hoje só consegui nomear com a própria pergunta.

Qual é o nome? e este é o nome.

 

 

 

cómo se llama

 

 

Si recibo un regalo dado con cariño por alguien que no

me gusta, ¿cómo se llama lo que siento?

Alguien que ya no nos gusta y a quien ya no gustamos,

¿cómo se llama esa pena y ese rencor?

Estar ocupada y de repente parar porque se apodera

de nosotros una ociosidad beata, milagrosa, sonriente

e idiota, ¿cómo se llama lo que se siente?

El único modo de llamarlo es preguntar: ¿cómo se llama?

Hasta hoy sólo he conseguido nombrar con la misma pregunta.

¿Cuál es el nombre? Éste es el nombre.

 

 

 

 

era uma vez

 

Respondi que eu gostaria mesmo era de poder um dia afinal escrever uma história que começasse assim: “era uma vez…”.

Para crianças? perguntaram. Não, para adultos mesmo, respondi já distraída, ocupada em me lembrar de minhas primeiras histórias aos sete anos, todas começando com “era uma vez”; eu as enviava para a página infantil das quintas-feiras do jornal de Recife, e nenhuma, mas nenhuma, foi jamais publicada.

E era fácil de ver por que. Nenhuma contava propriamente uma história com os fatos necessários a uma história. Eu lia as que eles publicavam, e todas relatavam um acontecimento. Mas se eles eram teimosos, eu também. 

Mas desde então eu havia mudado tanto, quem sabe eu agora já estava pronta para o verdadeiro “era uma vez”. Perguntei-me em seguida: e por que não começo? agora mesmo? Seria simples, senti eu. E comecei. Ao ter escrito a primeira frase, vi imediatamente que ainda me era impossível. Eu havia escrito:

“Era uma vez um pássaro, meu Deus.”

 

 

érase una vez

 

 

Respondí que lo que realmente me gustaría sería poder

escribir un día una historia que empezase así: «Erase una

vez … ».

¿Para niños?, me preguntaron. No, para adultos,

respondí ya distraída, ocupada en recordar mis primeras

historia’ de los siete años, que empezaban todas con Erase

una vez,,: yo las enviaba a la página infantil de los jueves

del periódico de Recife, y ninguna, pero ninguna, fue publicada.

 

Y es fácil saber por qué. Ninguna contaba exactamente

una historia con los hechos que una historia necesita.

Yo leía las que publicaban y todas contaban un acontecimiento.

Pero si ellos eran tozudos, yo también.

 

Pero desde entonces yo había cambiado tanto, quién sabe

si ahora ya estaba preparada para el verdadero «Érase

una vez». Me pregunté enseguida: ¿y por qué no empiezo?

¿Ahora mismo? Sería simple, sentí.

Y empecé. Después de haber escrito la primera frase, vi

inmediatamente que aún me era imposible. Había escrito:

 

“Érase una vez un pájaro, Dios mío”.

 

 

 

 

escrever, humildade, técnica

 

Essa incapacidade de atingir, de entender, é que faz com que eu, por instinto de… de que? procure um modo de falar que me leve mais depressa ao entendimento. Esse modo, esse “estilo” (!), já foi chamado de várias coisas, mas não do que realmente e apenas é: uma procura humilde. Nunca tive um só problema de expressão, meu problema é muito mais grave: é o de concepção. Quando falo em “humildade”, refiro-me à humildade no sentido cristão (como ideal a poder ser alcançado ou não); refiro-me à humildade que vem da plena consciência de se ser realmente incapaz. E refiro-me à humildade como técnica. Virgem Maria, até eu mesma me assustei com minha falta de pudor; mas é que não é. Humildade como técnica é o seguinte: só se aproximando com humildade da coisa é que ela não escapa totalmente. Descobri este tipo de humildade, o que não deixa de ser uma forma engraçada de orgulho. Orgulho não é pecado, pelo menos não grave: orgulho é coisa infantil em que se cai como se cai em gulodice. Só que orgulho tem a enorme desvantagem de ser um erro grave, com todo o atraso que erro dá à vida, faz perder muito tempo.

 

 

 

escribir, humildad, técnica

 

 

Esa incapacidad de alcanzar, de entender, hace que yo,

por instinto de … , ¿de qué?, busque un modo de hablar

que me lleve más deprisa a la comprensión. Ese modo, ese

estilo (!) ha sido llamado de distintas maneras, pero no lo

que real y únicamente es: una busca humilde. Nunca he tenido

un solo problema de expresión, mi problema es mucho

más grave: es de concepción. Cuando hablo de humildad,

me refiero a la humildad en el sentido cristiano

(como ideal que puede o no ser alcanzado); me refiero a la

humildad que viene de la plena conciencia de ser realmente

incapaz. Y me refiero a la humildad como técnica. Virgen

María, hasta yo misma me asusto de mi falta de pudor;

pero así es. La humildad como técnica es lo siguiente: sólo

si nos acercamos con humildad a la cosa no se nos escapa

del todo. Descubrí este tipo de humildad, que no deja de

ser una forma curiosa de orgullo. El orgullo no es pecado,

al menos no muy grave; el orgullo es algo infantil en lo que

se cae como en las golosinas. Pero el orgullo tiene la enorme

desventaja de ser un error grave y, con todo el retraso

que los errores causan a la vida, hace perder mucho tiempo.

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

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